Review: Basilisk

Quando você, estimado leitor, achou que eu havia sumido, eu apareço aqui com um novo texto para provar que sou um menino mudado. E não é uma recomendação fuleira de três parágrafos: é uma review sobre um anime sensacional, com lá seus já manjados artifícios de um anime de ação, mas que consegue mesmo dentro de todos esses clichês ser extremamente criativo e bem desenvolvido. E o anime em questão é Basilisk Kouga Ninpouchou, do famoso estúdio GONZO, sob direção de Fumitomo Kisaki.

Assistir Basilisk foi, primeiramente, derrubar alguns preconceitos que eu carregava há algum tempo. O primeiro deles, que acredito que seja comum a muitos, foi em relação a mangás/animes de ação que fugiam muito à realidade: ler ou ver algo com ninjas mutantes, dotados de poderes sobrenaturais e instintos sobre-humanos, me parecia extremamente infantil, justamente por eu só ter tido acesso a animes de ação na minha infância, através de canais como Jetix e Cartoon Network. Mas como tinha de fazer uma recomendação e cheguei ao nome por acaso, li um pouco sobre e resolvi ver os primeiros episódios, sem grandes pretensões. Só o que eu não esperava era que a abertura do anime (Kouga Nimpouchou, da banda Onmyouza) fosse me chamar tanta atenção. Belíssima música: combinação perfeita entre o instrumental pesado, a doce e ao mesmo tempo potente voz de Kuroneko (vocalista da banda) e a flauta floreando ao fundo. Acabei procurando até mais músicas da banda e não me decepcionei.

Passada a abertura, entra uma batalha entre um corcunda cuspidor de uma gosma extremamente colante e pegajosa e um jovem ninja manipulador de cordas especiais capazes de cortar a mais forte das espadas. Tudo parece mal explicado, algo como uma grande continuação de outro capitulo, até alguns minutos depois vir a explicação: começa a ser contada a história de dois jovens apaixonados, Danjo e Ogen, que se encontravam secretamente e só ansiavam poder um dia enfim assumir seu amor e viverem juntos pela eternidade (acho que isso fica melhor do que “felizes para sempre”, não?). No entanto, o vilarejo de Tsubagakure, onde vive o clã de Iga, liderado por Ogen, é atacado pela facção dos Oga. O ataque destrói o vilarejo e aniquila grande parte de sua população, mas alguns de seus líderes conseguem escapar. No meio da fuga, caem em nova emboscada, dessa vez arquitetada pelo clã de Danjo, Kouga do Vale de Manjidani. Apesar de Danjo, que estava com os Iga o tempo da invasão inteiro, ter ordenado a seus companheiros de clã a pararem com o ataque, os membros de Iga, inclusive Ogen, o acusaram de traição. Ressentidos, Danjo pela acusação de traição e Ogen por acreditar que havia sido traída, o casal resolve inflar ainda mais o ódio que seus clãs vinham arrastando um pelo outro há centenas e centenas de anos.

Contada toda a história por detrás de todo o ódio entre aqueles dois velhinhos que assistiam à luta, é explicado também o porquê daquela batalha (batalha que era apenas uma exibição para o grande xogum). O xogum Ieyasu Tokugawa precisava decidir quem seria seu sucessor, já que uma guerra civil se iniciava pela sucessão do poder, e para isso resolve fazer uma espécie de jogo: cada clã representaria um de seus candidatos a sucessor. O acordo de paz entre aquelas duas grandes aldeias seria desfeito, seus líderes escolheriam 10 de seus ninjas mais importantes para se enfrentar entre si e seria dado a cada clã um pergaminho trazendo todas as explicações, instruções e nomes de adversários da tribo rival. A tribo que exterminasse todos os 10 membros da outra vencia. A questão é que esse não é bem o tipo de jogo que você joga com seus coleguinhas de escola quando termina de merendar, não é? Pois é, era de se esperar que os membros de ambas as tribos levassem o “jogo” um pouco mais a sério, ainda mais se tratando de adversários com uma rixa tão antiga. Adianto que o que se segue é uma disputa tensa, sangrenta e principalmente impiedosa. Muitas vezes triste, mas com lições valiosas a cada episódio.

Em meio a essa novidade, está o amor de Gennosuke e Oboro, netos de Danjo e Ogen, respectivamente. Eu sei que você que está lendo deve estar pensando “Ah, não pode ser, que palhaçada, os netinhos vão repetir a historinha dos avós?” mas não é bem assim. Eles não se apaixonaram por acaso, foi algo arquitetado pelos próprios Danjo e Ogen, que prometeram um ao outro em casamento ainda quando eles eram pequenos, para que no futuro a paz pudesse enfim reinar entre os dois clãs. Infelizmente, com o surgimento desse jogo maligno, os planos de casamento e paz de Gennosuke e Oboro são interrompidos. E é justamente aí que está uma das características mais marcantes e bem exploradas da obra: o drama. Gennosuke e Oboro sentem um sentimento genuinamente puro um pelo outro, um amor por vezes nauseante para as pessoas mais chegadas nas partes ecchis do anime (confesso que até pra mim que nem sou tão fã dessas partes), mas incontestavelmente bonito, leal e inocente.

Talvez o que tenha me chamado mais atenção na trama tenha sido o lado humano de cada participante. Nós vemos guerreiros muitas vezes cruéis durante os confrontos, capazes de cometer assassinatos desumanos. Mas com o decorrer dos episódios, a história de alguns dos personagens começa a ser contada, o porquê de ele estar naquela batalha e o cotidiano de cada aldeia enquanto o tratado de paz ainda vigorava. Alguns episódios, inclusive, são dedicados apenas a contar histórias e a dar explicações, imagino que para aliviar toda aquela tensão da morte de alguns personagens aos quais você acaba até se apegando.

Em se tratando de personagens, Basilisk é simplesmente surpreendente. A criatividade do mangaká Masaki Segawa (autor da obra original) parece ser bem fértil. As técnicas e habilidades de cada personagem, suas histórias, suas características psicológicas, tudo é muito bem pensado e variado. Mas, infelizmente, acho que não cabe uma descrição detalhada nem dos principais personagens, Gennosuke e Oboro, porque com o passar do tempo tanto eles quanto outros personagens vão se revelando muito diferentes das primeiras impressões que passam, além de mostrar suas habilidades especiais muitas vezes ocultas. Eu, por exemplo, achei que Gennosuke seria um verdadeiro idiota, mas fui percebendo que ele é um protagonista e tanto. Um protagonista que não foge tanto aos padrões, um verdadeiro herói, mas que você até escolheria para usar no vídeo-game, diferente de alguns outros como Naruto e Goku, por exemplo, pros quais eu sempre olhava com certo desdém nas épicas batalhas com meus amigos.

Basilisk começou meio insosso, mas foi os poucos me chamando mais e mais atenção de maneira que no fim já estava completamente vidrado. Basilisk começa confuso, se desenvolve magistralmente e termina de forma bastante convincente. Não irá agradar a todos os públicos, mas com certeza não decepcionará ninguém que gosta de um bom seinen. Um anime (dos nem tantos que eu vi) que com certeza entrou pro meu hall de animes favoritos e deve ficar por lá durante muito tempo. Ótimo anime, assistido, aprovado e super recomendado.

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Publicado em setembro 8, 2012, em reviews e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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