Review: Um dia ideal para os peixes-banana

Durante um tempo pouco maior que um ano, mantive aberto no navegador do meu celular uma página da web onde fora transcrito um conto. Um conto curto, que só era lembrado nas vezes em que eu abria o browser para pesquisar qualquer coisa – e então sempre que lembrava do conto, estava ocupada demais para deter minha atenção nele. E por meses eu dava de cara com aquele título, seguido de vários parágrafos que esperavam anciosamente para serem lidos. “Um dia ideal para os peixes-banana”, eu lia. E logo em seguida pensava: “deixa pra mais tarde”.

Foi assim que a coisa aconteceu por esses 13 meses e meio; até hoje. Hoje, quando olhei pra fora da quadra da minha escola, passou na hora o pensamento “puxa, hoje está um dia ideal para os peixes-banana”. Mesmo sem saber, até então, como diabos se configurava um peixe-banana. Descobri, lendo o conto, que o dia de hoje não é nada um bom dia para um peixe-banana.

O conto é uma das maiores obras de J. D. Salinger, genial autor que deixou nosso mundo em 2010, nos presenteando com trabalhos maravilhosos para lembrá-lo. Ele foi publicado na revista The New Yorker no final dos anos ’40, junto com vários outros contos de mesma autoria, compilados e publicados no livro “Nove Estórias”, que já tratei de encomendar de um sebo amigo.

“Um dia ideal para os peixes-banana” (que a partir de agora será reduzido para “Peixes-Banana” por motivos óbvios), tomou no máximo quarenta minutos do meu tempo – contando desvios de atenção e cutuques dos coleguinhas da escola. A pesquisa para sacar a mensagem da história me tomou um pouco mais de tempo – cerca de 50 minutos – e me rendeu um vasto conhecimento sobre a obra de Salinger.

É, eu precisei pesquisar uma boa explicação do conto. Não tenho problemas de compreensão e não é um conto nada complicado – muito pelo contrário, é tão simples e sedutor que a leitura flui levemente. É realmente um texto gostoso de ler – o Salinger é mesmo bom nisso. Eu li o conto no original, em inglês. Não tive problema algum com palavras desconhecidas nem nada parecido; é uma linguagem que pega até uma criança que está aprendendo a ler, e sua tradução é facilmente encontrada depois de uma rápida pesquisa no Google.

O que justifica uma busca por explicação a respeito da história são as sutilezas escondidas nela e, acima de tudo, o contexto do conto. Eu não tinha conhecimento prévio do estado mental do personagem principal, embora isso tenha sido discretamente mencionado no decorrer do texto. Através da minha pesquisa, fiquei sabendo que Seymour Glass, o protagonista, é um famoso personagem americano, apresentado por Salinger em seus contos posteriores a “Peixes-banana”. Sua personalidade é muito bem evidenciada nas histórias que se seguem – sem ordem cronológica. Depois de saber disso e de outros pormenores, consegui sacar as analogias feitas pelo autor ao longo dos três pedaços que constituem o conto.

Falando agora do conteúdo de “Peixes-Banana”, trata-se de um conto formado principalmente por diálogos e breves descrições das situações feitas pelo narrador. É introduzido pela conversa entre Muriel Glass, uma mulher que está hospedada em um hotel na Califórnia com seu marido, Saymour Glass, e sua mãe. A mãe de Muriel, em um diálogo aflito, dá pistas sobre a personalidade de Saymoure – na verdade, ela simplesmente deixa explícito o que pensa dele: um psicótico que a qualquer momento pode fazer alguma coisa com sua filha Muriel. Enquanto a mãe a alerta sobre o marido perigoso e tenta convencê-la a voltar pra casa, Muriel fala tranquilamente para a mãe que não há com o que se preocupar.

O segundo momento do conto descreve uma conversa entre Seymour, que está na praia relaxando, e Sybil, uma garotinha que gosta de fazer companhia a ele (que neste momento do conto é chamado apenas de “young man”). É nesta parte da história que surge o tema dos “peixes-banana”, que aqui transcrevo para melhor entendimento:

He looked at the ocean. “Sybil,” he said, “I’ll tell you what we’ll do. We’ll see if we can catch a bananafish.”
“A what?”
“A bananafish,” he said, and undid the belt of his robe. He took off the robe. His shoulders were white and narrow, and his trunks were royal blue. Then, with his left hand, he took Sybil’s hand.
The two started to walk down to the ocean.
“I imagine you’ve seen quite a few bananafish in your day,” the young man said. “You just keep your eyes open for any bananafish. This is a perfect day for bananafish.”
“I don’t see any,” Sybil said.
“That’s understandable. Their habits are very peculiar.” He kept pushing the float. The water was not quite up to his chest. “They lead a very tragic life,” he said. “You know what they do, Sybil?”
She shook her head.
“Well, they swim into a hole where there’s a lot of bananas. They’re very ordinary-looking fish when they swim in. But once they get in, they behave like pigs. Why, I’ve known some bananafish to swim into a banana hole and eat as many as seventy-eight bananas.” He edged the float and its passenger a foot closer to the horizon. “Naturally, after that they’re so fat they can’t get out of the hole again. Can’t fit through the door.”
“What happens to them?”, Sybil said.
“What happens to who?”
“The bananafish.”
“Oh, you mean after they eat so many bananas they can’t get out of the banana hole?”
“Yes,” said Sybil.
“Well, I hate to tell you, Sybil. They die.”
“Why?” asked Sybil.
“Well, they get banana fever. It’s a terrible disease.”

Depois de mais um trecho de diálogo, os dois se despedem e o conto entra em seu terceiro estágio.

Evitando spoilers, não vou descrever este último momento. Digo apenas que tudo o que Seymour diz a Sybil sobre os peixes-banana adiantam ao leitor seu trágico final. Isso se forem feitas as devidas interpretações.

Apresentando-lhes o contexto do personagem, e evitando que fiquem perdidos ao final da narrativa, devo dizer que Seymour é um ex-soldado que atuou na Segunda Guerra Mundial e sofre de um grande trauma, após ser internado em um hospital psiquiátrico no período em que esteve no exército. Por isso, apresenta comportamento agressivo em certos momentos do conto e a mãe de Muriel menciona uma tentativa de suicídio.
Tudo isso eu só saquei depois de ler oito páginas de uma tese sobre o conto.

A partir disso e da leitura do conto, que disponibilizo através dos links no final do post, desejo a vocês uma ótima leitura e ainda me arrisco a sugerir que conheçam outras obras do autor (com um carinho especial ao seu trabalho mais famoso, “O Apanhador no Campo de Centeio”, que merece um post só pra ele). Eu mesma começo hoje o livro que acabei de comprar, no caminho de casa, “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação”, também contos do Salinger. Ambos tratam da família de Seymour, assim como vários outros contos do autor – muitos deles com os mesmo personagens, mas em cada um com um narrador. Neste livro, ficamos sabendo bem mais sobre a personalidade do personagem esquizóide representado em “Peixes-banana”, uma vez que temos relatos sobre o dia de seu casamento com Muriel e de mais alguns momentos de sua vida que seu irmão, responsável por narrar os contos, julgou interessantes para “limpar” o nome de Seymour diante de um estranhamento tão grande.

É um trabalho genial que este homem fez em vida, eu realmente recomendo a qualquer um. E, quem sabe, um dia desses eu apareço com um review de mais algum dos contos pra postar no Mangathering.

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Publicado em setembro 25, 2012, em Posts não-Otakus, reviews e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Admito que tenho uma certa curiosidade pelos trabalhos de Salinger (principalmente depois que ouvi falar do apanhador no campo de centeio). E de fato uma obra chamada “um dia ideal para os peixe-banana” sem dúvidas tomou meu interesse. Infelizmente, nunca encontrei uma das obras dele para ler, mas agora fiquei realmente apreensivo.

    By the way, eu não entendi MESMO a metáfora dos peixes-banana (do trecho citado), apesar de que eu consigo traduzir bem a cena, não consegui chegar a nenhuma interpretação satisfatória, só lendo mesmo.

  2. alexandravincent

    Oi, Rafael. Desculpa demorar pra responder.

    Mas então, valeu por comentar (é empolgante receber comentários nos primeiros posts).
    E olha, não tem realmente como você sacar de cara toda essa analogia que o Salinger faz com os peixes-banana e o estado mental do Seymour.

    Eu li esses dias esse conto que mencionei (Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira), e devo dizer que as coisas ficam muito mais claras com ele. O que é curioso, já que o Salinger publicou primeiramente “Um Dia Ideal Para os Peixes-Banana”. De qualquer forma, talvez seja bem mais conveniente que o conto dos carpinteiros seja lido antes.

    O trecho que incluí no post foi, basicamente, pras pessoas terem uma noção de como é a linguagem que o autor usa nos seus contos e também pra esclarecer o que é um peixe-banana – independente de qualquer relação que ele tenha com a “realidade” do personagem.

    Mas, em todo caso, vou tentar explicar melhor toda essa coisa de peixes obesos e banano-compulsivos:

    Note que Seymour diz a Sybil que, antes de entrarem nos buracos com bananas, os peixes são perfeitamente normais, como quaisquer outros peixes. Porém, uma vez que estão lá dentro, agem como porcos.
    Fazendo um paralelo com a vida do protagonista, que participou da Segunda Guerra Mundial e inclusive teve que ser internado em um hospital psiquiátrico do exército, pode-se dizer que Seymour era um sujeito comum antes de ir para a batalha. Porém, a partir do momento que o homem arrisca sua vida em uma guerra, é tudo ou nada – matar para não morrer. Em outras palavras, uma vez dentro da guerra, passam agir como porcos.
    Seymour também conta que uma vez chegou a ver um peixe-banana engolir 78 bananas. Isso pode ser relacionado com experiências de guerra, e as 78 bananas seriam 78 vidas tomadas – não saberia dizer se por ele mesmo ou por algum outro soldado.

    E então, quando eles tentam sair do buraco, não conseguem mais passar pela entrada. Estão gordos demais. As conversas de Muriel com sua mãe evidenciam a mente perturbada de Seymour, uma mente traumatizada que passou por maus bocados. Logo, conclui-se que esta analogia é feita entre os peixes, que não podem deixar os buracos de bananas, e os soldados, que não conseguem se ver livres de seus passados trágicos e ficam presos aos episódios vividos nos piores dias de suas vidas.

    Eu realmente pesquisei, depois de ler o conto, todas essas coisas que disse aqui. Talvez eu não precisasse disso, caso tivesse lido “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira” antes. Apesar de não ser tão envolvente como “Peixes-Banana” e menos ainda do que “O Apanhador no Campo de Centeio”, continua sendo uma bela obra de Salinger, que sinceramente recomendo a você. É bem curto, e Salinger não comparece fisicamente em nenhum momento narrado por seu irmão. Porém, algumas páginas do diário de Seymour são reveladas.

    Mas isso tudo você vai acabar descobrindo ao vasculhar a obra dele (e eu espero que faça isso). Gostei de saber que você se interessou pelo conto a partir do meu texto. Obrigada pelo comentário (: E volte sempre.

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