Comentando: Bokura no Hikari Club (Do 1º ao 4º capítulo)

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Pela primeira vez, analisando uma obra à medida que o scanlator lança seus capítulos. O mangá em questão é Bokura no Hikari Club, de Usamaru Furuya, que visa contar como o Hikari Club se tornou aquela coisa horrenda que era em Litchi Hikari Club. Acho que é desnecessário dizer que esse post contém spoilers da franquia Hikari Club como um todo, né?

Primeiramente, eu sei que esse mangá já deve estar completo em inglês e tal, mas eu prefiro ler em espanhol. Portanto, estou aguardando os lançamentos do BloodSei, que é um baita blog se tratando de mangás de horror e suspense, recomendo. Recentemente, eles lançaram o quarto dos dozes capítulos da série, portanto, neste post eu falarei dos quatro primeiros capítulos. Se você pretende ler este post, é recomendado que você já tenha lido pelo menos alguma coisa da linha Hikari Club, mesmo que seja o LHC. Agora, prossigamos.

Bokura no Hikari Club é uma prequel de LHC, e nos apresenta ao Hikari Club pré-Zera. Ou seja, vai mostrando tudo, desde a formação do clube, quando era o Tamiya quem comandava tudo, passando, é claro, pela chegada de Tsunekawa Hiroyuki, o Zera, que vai corrompendo o clube com suas ideias, pouco a pouco.

O primeiro capítulo- e consequentemente, o mangá- começa com uma página que já entrega tudo a quem já leu LHC: uma página com um Tamiya horrorizado, se perguntando “Como isso foi acontecer? Como tudo pôde chegar a esse nível?”. Isso acontece, obviamente, quando Tamiya ainda está vivo, provavelmente no momento mais denso de LHC para a personagem. Mas de LHC, por enquanto, só isso. Aí começa a saga do Hikari Club.

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Logo somos apresentados à precária realidade dos garotos, que vivem numa cidade chamada Keikou, poluída e fumacenta. O ainda jovem Tamiya leva seus colegas Dafu e Kaneda a uma espécie de esconderijo, e lhes diz que ali, a partir de então, seria a sede do clube deles. O Hikari Club, cujo nome foi obtido a partir das primeiras sílabas do sobrenome de cada um. Em princípio, este seria apenas um lugar para eles se reunirem para jogar xadrez e se divertirem… eu disse em princípio. Ah, vocês já sabem o que vai acontecer daqui a pouco!

Passamos à rotina escolar dos garotos, onde nos é apresentado- bom… a gente sabe quem ele é- um garoto chamado Ishikawa Naritoshi, conhecido por nós, fãs da obra(?), como Niko. O garoto está sendo acusado pelo roubo do dinheiro do lanche dos outros alunos da turma, e, para se defender, acusa Kaneda. Uma confusão se estabelece na sala até a chegada do Tamiya, aquele que nasceu pra ser protagonista de mangá shounen, que pede para pararem de acusar uns aos outros, e acaba com a bagunça. O capítulo segue com uma conversa entre os membros do clube com o Niko, na qual o Tamiya fala que não gosta de vê-lo chateado, e que seria bom sorrir de vez em quando, entre outras baboseiras. Quando eles se despedem, nos é revelado que o Niko roubou mesmo aquele dinheiro. “Mas que filho da mãe!” você pensou, mas se acalme, por favor. E agora o mangá pega fogo… um garoto misterioso encontra o esconderijo do Hikari Club e se une a eles… seu nome? Tsunekawa Hiroyuki. “Até aí, o Hikari Club ainda era nosso” encerra o desgostoso Tamiya em sua sutil versão dos fatos.

Esse primeiro capítulo é bem introdutório, sem grandes revelações ou acontecimentos. Uma das coisas que mais vem me agradando nesse mangá são as inúmeras referências a futuros eventos, como as frases do Tamiya no começo e no final do primeiro capítulo, ou algumas falas inocentes ao longo do mesmo.

bnhc1O segundo capítulo começa com as atividades corriqueiras do clube, com Tsunekawa já integrado ao mesmo. Sua partida de xadrez contra Tamiya, na qual, mesmo tendo perdido, ele foi bem mais resistente do que Dafu e Kaneda; e sua excelente pontaria com o estilingue. Voltamos à rotina escolar dos garotos, na qual o recém-transferido Tsunekawa nos é mostrado sofrendo bullying. Após isso, o ingênuo Tamiya tenta, com a ajuda de seus outros companheiros de clube, motivar e consolar o novo estudante. Nessa conversa, Tsunekawa apresenta um plano incrivelmente detalhado que o ajudaria a se vingar dos que o humilharam. Eu, particularmente, achei essa parte meio forçada, mas prossigamos. O objetivo disso era mostrar que o garoto é extremamente frio e calculista, portanto, funcionou. O futuro ditador do clube da luz, depois, nos é mostrado com seu projeto de verão, na escola. Nada mais, nada menos, do que um mini-robô, o que deixou toda a turma impressionada. No final do capítulo, durante uma partida de xadrez entre Tamiya e Tsunekawa, este diz ao primeiro que ganhará em cinquenta e seis movimentos com o seu bispo, e que se o fizer, quer ser chamado de Tsunekawa-kun. E foi exatamente isso que aconteceu. Para encerrar essa cena, é dito que, naquele momento, algo sinistro surgiu no garoto, mas que ninguém havia se tocado disso, no momento. E é na última página do capítulo em que Bokura no Hikari Club realmente começa a andar. Quem já leu Litchi Hikari Club deve se lembrar de um flashback no qual um vidente diz a Zera que ele era envolvido por uma estrela negra que o tal homem não havia visto nem em Hitler, e de quebra, ainda fala que o garoto pode morrer aos quatorze anos, ou dominar ao mundo aos trinta, e que tudo isso depende de uma certa garota, certo? Bom, o segundo capítulo acaba com o encontro entre Tsunekawa e o vidente, e é no terceiro em que tudo isso acontece.

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E como eu disse, é a partir daí, que a história anda. Deste momento em diante, Tsunekawa passa a levar a sério as palavras do vidente, e convence a si mesmo de que não quer morrer aos quatorze, e que dominar o mundo seria algo interessante. O garoto começa a ler sobre Hitler e dar uma olhada em alguns livros, até que se lembra de Heliogábalo, um imperador romano que assumiu o trono com apenas quatorze anos, que mantinha relacionamentos homo afetivos e que foi morto numa revolução. No mangá, ainda é citado um suposto episódio retratado no belíssimo quadro “As Rosas de Heliogábalo”, de Lawrence Alma-Tadema, mas que é considerado por muitos historiadores apenas um mito, e realmente, é o mais aceitável, visto que tal acontecimento foi “revelado” na História Augusta, considerada por muitos como uma obra de ficção histórica, na qual nem todas as partes correspondem, realmente, à realidade.  Aliás, para quem não sabe, a personagem de Tsunekawa/Zera foi inspirada nele, e isso já parece óbvio apenas pela breve descrição do imperador, né?

Tudo isso parece ter se fixado completamente na cabeça de Tsunekawa, e isso sim, é algo bacana de se notar. Notar como um monstro surgiu em um garoto qualquer, como ele se interessa por tudo isso, etc. Nos é mostrado, também, como Dentaku- que vocês já devem conhecer- se aproxima de Tsunekawa e começa a trocar ideias sobre seu trabalho numa calculadora modificada com o garoto, que se interessa muito por isso, e parece até já ter tido uma ideia. Tamiya, Dafu e Kaneda chegam à sede do clube, onde se deparam com uma enorme estrela negra desenhada no chão, por Tsunekawa. O garoto apresenta o novo integrante do grupo, Dentaku, e fala que quer construir um robô, para dominar o mundo. É, aí ele já tá doidão das ideias.

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Ok. Talvez até aqui eu tenha falado muito da história, e analisado pouco a obra. Mas a verdade é que eu só estava esperando chegar neste ponto, o capítulo quatro. Esse capítulo é divino. Sério! Talvez um dos melhores da obra como um todo (contando com LHC). Ele começa mostrando Tamiya e seus escudeiros completamente empolgados com a ideia de fazer um robô, e desenhando o mesmo, no colégio. Essa cena reflete claramente a inocência das crianças, completamente empolgadas porque vão fazer algo novo, e deveras excitante. Após vê-los desenhando, e participar de uma conversa com eles, Niko acaba se tornando o mais novo membro do Hikari Club.

Ao chegarem à base do clube, eles avisam à Tsunekawa que têm um novo integrante. A princípio, o garoto repudia a ideia, perguntando a Niko coisas como “Qual a sua especialidade?” ou “O que ganharíamos com você entre nós?”, frases que, por si só, já mostram o interesse e a malícia do jovem. Tamiya faz questão de lembrar a Tsunekawa que ele- ainda- é o líder. Lembram quando eu comentei daquela suposta ironia aplicada sutilmente em algumas falas, que nos remete a acontecimentos futuros? É, pois é. Durante esta cena, Niko fala que faria de tudo pelo clube, que daria sua vida, e coisas do tipo. Entenderam, não? Logo depois, os garotos ouvem um barulho, tem alguém na base. Duas pessoas, aliás. São Raizou- podem gritar, fangirls- e Yamada- aquele que nem eu lembrava que existia. Eles dizem ter seguido os integrantes do clube porque adoraram a ideia de construir um robô, e estavam curiosíssimos.

bnhc6Aí entra em ação a crueldade lindamente irônica do nosso querido Tsunekawa: ele diz que eles não podem saber do segredo do clube, e que devem ser punidos (aliás, isso me lembrou o começo de Litchi Hikari Club, heh). E o garoto encarrega Niko de eliminar os dois, já que ele “faria qualquer coisa pelo clube”. Maléfico, não? Maravilhoso também, né? Mas à altura da história em que estamos, tais pretensões AINDA não podem ser passadas para o plano físico, portanto, nada acontece. Aliás, Raizou esbanja carisma nessa cena, já apresentando todo o seu lado afeminado que- assim como Jaibo, que ainda não apareceu- encanta as fujoshis. Tá, eles acabam, obviamente, entrando para o grupo, que já soma oito integrantes.

Depois disso, Tsunekawa pede mais cuidado aos membros do clube, que, por falarem do mesmo em público, atraíram a atenção de várias pessoas. “Parece que o Tsunekawa está querendo agir como líder” disse, sagazmente, Dafu. O futuro líder do clube apresenta a todos o projeto “oficial” do robô, dando uma longa- e até desnecessária- explicação de seu funcionamento e coisas do tipo. Durante essa explicação, “Estava coberto por uma misteriosa sensação […] continuei olhando fixamente para Tsunekawa enquanto ele explicava seu plano […] esse bastardo seria meu verdadeiro Nêmesis”, nas palavras de Tamiya.

Aí sim, entra em ação o lado carismático de Tsunekawa, que convence todos a seguirem-no sem receio. Em seu breve discurso, o garoto faz questão de tratar o tempo como o grande inimigo da humanidade, e trata o envelhecimento como uma das coisas mais detestáveis e temíveis do mundo. Diz ainda, que quer ter a máquina pronta quando eles tiverem quatorze anos, para pôr seu plano em prática na idade em que Heliogábalo assumiu seu trono. É impressionante como o garoto conseguiu convencer todos os outros, sem exceção. Não houve um garoto sequer, que não tenha dado um berro de “Iremos dominar o mundo!” ou algo do tipo. A verdade é que, Tsunekawa realmente era um gênio. Um garoto cuja capacidade de compreensão de mundo e esperteza eram absurdamente superiores a de qualquer outro membro do clube, portanto, não foi tão difícil manipulá-los. Todos o seguiriam inocentemente.

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Em quatro capítulos, já vimos o desenvolvimento de Tsunekawa, que acabara de se apresentar como um gênio frio e calculista, com ideias perversas e um sonho de dominar o mundo. Muito disso justifica sua ambição excessiva em Litchi Hikari Club, quando ele já era chamado de Zera. Mas a verdade é que Zera, ou Tsunekawa, é, definitivamente, uma personagem extremamente cativante. Não à toa figura entre minhas personagens favoritas all-time.

Bokura no Hikari Club é, além de muito interessante, praticamente fundamental para uma compreensão total das facetas de cada componente do grupo. A narrativa do Furuya é mágica, e as pequenas frases avulsas do Tamiya “do futuro” passam diversas sensações, incluindo a de tristeza. Elas tem melancolia e arrependimento exalando por cada palavra de sua composição, e isso expande as dimensões da tragédia. Afinal, como uma mera brincadeira de crianças poderia resultar numa desgraça dessas?

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Em Litchi Hikari Club, Furuya utilizou uma técnica narrativa interessante para apresentar suas personagens- como eu citei em minha review. Se já em LHC as peças da história foram apresentadas de maneira competente, apesar de superficialmente, Bokura no Hikari Club quer nos aprofundar mais nelas. Agora, quando alguém decidir reler LHC após a leitura de sua prequel, entenderá mais ainda os sentimentos de Tamiya; a tristeza, o arrependimento e a revolta, que resulta num contra-ataque quase heroico. Tudo o que era esperado desde LHC se faz presente aqui, como explicações de pormenores, com destaque para a história de Heliogábalo e o encontro de Tsunekawa com o vidente, que, curiosamente, se apresenta como Marquês de Maruo. Maruo… Ah, aí está! Mais um dos elementos tradicionais de LHC, o trabalho de Furuya com base numa obra do Tokyo Grand Guignol estabelece uma ligação que nos apresenta claramente o nome do grandioso Suehiro Maruo entre ambos. Em Bokura no Hikari Club- pelo menos nesses quatro capítulos- tal influência não se tornou tão visível, mas vejamos.

Até o(s) próximo(s) capítulo(s).

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Sobre Daisuke~

Amante de cinema (e de arte e entretenimento de forma geral), adora escrever sobre filmes, livros, mangás, etc.

Publicado em janeiro 12, 2013, em analisando momentos, Comentários Periódicos e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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