Review: Hikaru no Go

“PASSEI A PERNA NO LUCAS! GANHEEEEEEEEEEEEEEI!” do Mangathering, Daisuke.

Desculpa Luki, mas Hikaru no Go é meu! Eu venci, e cá estou para trazer um texto sobre um dos melhores mangás já feitos.

Hikaru no Go é um mangá com roteiro de Yumi Hotta e arte de Takeshi Obata (Death Note, Bakuman, entre outros) que foi publicado na Shonen Jump entre 1998 e 2003, e ganhou uma adaptação para anime em 75 episódios (mais um OVA) pelo Studio Pierrot.

Muitas pessoas tendem a ter um certo “preconceito” com esse mangá por causa de sua temática: o Go, antigo jogo de tabuleiro asiático. Quem deixa de apreciar uma obra dessas por um motivo tão tolo não sabe o que está perdendo. Coitados.

Shindou Hikaru é um estudante qualquer, e numa visita à casa de seu avô, enquanto explorava o porão, acaba por encontrar um tabuleiro de Go com manchas de sangue. Ao falar com sua amiga Akari, que também estava presente na cena, Hikaru percebe que apenas ele consegue enxergar as manchas rubras. O garoto passa a escutar uma misteriosa voz proveniente do tabuleiro, e desmaia.

Hikaru mal podia advinhar que a tal voz pertencia a Sai, o fantasma de um grande jogador de Go do período Heian que se apossou do tal tabuleiro à espera de alguém que permita-lhe continuar com sua grande paixão, e atingir a tão sonhada “jogada de Deus”. A história completa de Sai é contada, mas é melhor que você descubra lendo (ou assistindo).

Como Sai é um fantasma, e não tem corpo físico, ele precisa da ajuda de Hikaru para jogar o seu tão amado Go. Ao longo da história, o estudante passa a desenvolver um gosto pelo esporte e começa a aprender a jogar.

Logo no começo da história, Hikaru (na verdade, Sai) ganha um rival. A primeira partida do mangá é contra Touya Akira, filho do melhor jogador de Go da atualidade, e que é considerado um prodígio do esporte. Touya fica espantado com a habilidade de seu oponente, e fica obcecado pelo jovem Hikaru, sem saber que quem realmente jogou aquela partida foi o espírito de Sai.

Enquanto Hikaru é um garoto mesquinho, chato e sem motivação alguma na vida, Touya é um rapaz muito dedicado ao Go, e que leva a modalidade extremamente à sério, como pode ser visto no segundo encontro entre eles, ainda no começo do mangá, quando o protagonista brinca dizendo que pode até ganhar dinheiro “vencendo alguns torneios”, irritando o garoto prodígio.

A verdade é que a grande qualidade de Hikaru no Go, aquela que sempre é destacada em qualquer texto ou opinião sobre a obra, é o desenvolvimento da história e, principalmente, de seus personagens. Assino embaixo, mas ao mesmo tempo acredito que o único defeito da série também esteja relacionado a isso.

Como já dito, Hikaru passa a se interessar pelo mundo do Go, e começa a praticar e jogar cada vez mais. E o protagonista passa por algumas mudanças de ambientes e de parceiros, isto é, à medida que ele vai evoluindo no jogo, novos personagens, com habilidades cada vez mais impressionantes, vão surgindo. Por exemplo, Hikaru, que participava de torneios escolares representando o clube de Go do seu colégio, e que passa a se envolver com jovens jogadores que visam serem profissionais.

Isso pode parecer algo muito interessante, e na verdade, é. Porém, essas transições e aparições repentinas no elenco da série fazem com que algumas personagens sejam um pouco esquecidas. É semelhante à teoria da Seleção Natural, onde os mais fortes e capazes de se adaptar sobrevivem. Em Hikaru no Go, o elenco varia em camadas de habilidade no jogo, e por isso nem todas as personagens são aproveitadas devidamente. Por exemplo o Mitani, uma das personagens mais fascinantes da trama, cuja abordagem inicial era focada em suas trapaças, e que mais tarde se prova um ótimo jogador. Ótimo jogador a nível escolar. Após a transição de um ambiente para o outro, Mitani passa a ser, quase exclusivamente, alvo de citações infelizes e a protagonizar (não no sentido literal) situações onde o seu temperamentalismo é sempre destacado, sem ter aparições ou um desenvolvimento digno.

Mesmo assim, essa renovada que o elenco acaba por receber é bem agradável em alguns aspectos. Se por um lado perdemos algumas personagens interessantes, por outro também ganhamos algumas, obviamente. Nem todas as novas personagens são aproveitadas devidamente (Nase e Fukui que o digam), mas algumas são desenvolvidas com maestria, formando personalidades sólidas (no sentido de construção de personagem, porque todos esses jovens passam por provações e incertezas ao longo da série) e convincentes, como os carismáticos Isumi e Waya, que passam a figurar o grupo dos principais e constroem belos laços de amizade e rivalidade com o resto do elenco.

Aliás, Hikaru no Go é repleto de personagens carismáticas e profundas. Sai tem uma história bem construída, e que faz com que qualquer leitor tenha dó dele pela injustiça sofrida no passado. As personagens jovens, destaco o já citado Isumi, passam por momentos difíceis nos quais elas enfrentam as incertezas quanto ao mundo do Go, que são necessárias em qualquer personagem que está tendo o seu caráter formado. “Será que é isso mesmo o que eu quero para a minha vida?”, “Será que eu conseguirei realizar os meus sonhos?”, entre outros dilemas, fazem com que esse excelente grupo enfrente seus medos e incertezas, para provar a si mesmo sua capacidade e seguir em frente, sem desistir. Algo típico de um mangá shounen, mas que é tratado com uma profundidade absurda, quase como um seinen. O lado psicológico desses garotos é desenvolvido com uma competência absurda, e essas dúvidas acerca do futuro apenas acentuam o quão reais e bem construídas são as mentes deles, que se encaixam perfeitamente em alguém dessa idade cuja vida gira em torno da pressão. Pressão dos torneios, pressão das famílias que apenas querem um futuro saudável para eles, pressão deles mesmos.

Hikaru e Touya, que formam a grande rivalidade do mangá, são exemplos perfeitos de desenvolvimento na obra. E ao longo da série eles invertem seus papéis algumas vezes, formando um contraste interessante.

Nas primeiras páginas de Touya no mangá, podemos ver que o rapaz ostentava um sorriso confiante e sincero no rosto. Seu semblante muda completamente após perder a partida para Hikaru/Sai, e após isso raramente vemos aquele sorriso inocente e infantil ao longo da história. Ouso dizer que AQUELE sorriso, AQUELA inocência transmitida pela bela arte de Obata, não foi mostrada em momento algum após isso. Obviamente, Touya tem seus sorrisos de timidez e de simpatia, mas ele sempre mantém uma postura séria e adulta, como alguém que passou a vida toda praticando, até achar alguém que o superou. Touya vai atrás de Hikaru, ele almeja superá-lo, derrubar o muro que existe entre os dois. E a relação deles sofre mutações ao longo da série, mas sinceramente, eu falei demais sobre o enredo e o desenvolvimento, melhor não exagerar.

Do outro lado, Hikaru era um garoto desinteressado, arrogante e tranquilo, que finalmente arruma algo ao que se dedicar, e agarra o jogo que, a princípio não representava muito para ele, era apenas um hobby, e que passa a ser sua principal atividade, o seu motivo de viver. Podemos perceber isso quando, por vontade própria, Hikaru passa a querer derrotar Touya com suas próprias mãos, sua própria habilidade, e chegar ao topo do mundo do Go. Eles têm uma inversão de papéis interessante ao longo da trama, e que se repete incessantemente, até que ambos passam a viver no mesmo ambiente, na mesma realidade. Além disso, aquele Hikaru de personalidade irritante do começo do mangá passa a ser um rapaz que consegue ser sério sem perder sua essência infantil e inocente, enquanto Touya passa a se dedicar cada vez mais, almejando derrota-lo.

Hikaru no Go recebeu uma adaptação extremamente competente para anime. O único problema dele (além das questões do roteiro original) é que ele não cobre todo o mangá, deixando uns quatro volumes sem adaptação (Aliás, eu adoro esse último arco, apesar dele ser criticado por alguns leitores). Curiosamente, o anime se encerra de maneira satisfatória, sem deixar pontas soltas e coisas do tipo (salvo se você assistir o OVA, que apesar de ser bom, é inútil e serve apenas para trazer o público para o mangá). Apesar disso, os volumes do mangá que compreendem ao anime foram adaptados com maestria, de maneira fiel à obra original. A trilha sonora do anime é bem animada e agradável, combinando bastante com o clima da série, enquanto a animação é competente, e a arte, apesar de inferior à do mangá, também cumpre bem o seu papel.

Aliás, falando em arte: Hikaru no Go é, dentre os mangás que eu li, o que tem a melhor arte, provavelmente. Nesta série Obata nos brinda com todo o seu talento e detalhismo, proporcionando páginas de beleza imensurável, e representando o roteiro do mangá visualmente de maneira perfeita. O desenvolvimento das personagens, principalmente de Hikaru e Touya, que aparecem do começo ao final da série, também pode ser percebido pelo excelente trabalho artístico, que permite a compreensão das passagens de tempo da obra.

Hikaru no Go tem uma atmosfera calma e agradável, que ao mesmo tempo permite que surjam grandes rivalidades e um amadurecimento psicológico complexo de algumas peças importantes de seu elenco, sem perder seus elementos característicos. Também é notável como a Yumi Hotta consegue explorar a característica sobrenatural da trama, que é a existência de um fantasma no nosso mundo, o mundo humano, sem ter que recorrer para elementos do tipo ao longo da história. De sobrenatural, Hikaru no Go só tem o Sai. Nada mais.

Esta série também não é das mais instrutivas, isto é, não foi feita para ensinar o leitor a jogar Go, passo a passo. Ela apenas nos introduz o esporte, e cabe a nós nos aventurar e aprender a jogar ou não. E fiquem tranquilos, as partidas não são mostradas de uma maneira que as torna chatas, elas têm sim alguns termos específicos do jogo, por exemplo, mas que são perfeitamente compreensíveis tendo como base um glossário ou nota de tradução (como na edição brasileira, da editora JBC). E mesmo que o jogo não seja mostrado com uma quantidade de detalhes abusiva, os pensamentos e o estado mental das personagens durante as partidas fazem com que o leitor sinta toda aquela atmosfera, toda a pressão com a qual o jogador está sofrendo.

Hikaru no Go é um dos melhores mangás que eu já li, e merece o posto que tem entre as minhas obras favoritas. É uma série muito importante culturalmente falando, já que promoveu  o Go pelo mundo, além de também ter a capacidade de chamar atenção dos jogadores de Go para o mundo dos animes e mangás. Seu elenco de jovens personagens apresenta uma complexidade e profundidade absurdas, e mesmo assim sendo perfeitamente condizente com suas idades, sempre levando em conta as duvidas e questionamentos de pessoas que ainda têm muita vida pela frente. O desenvolvimento da história e de suas peças é magnífico, sua arte também. Tudo neste mangá é excelente. Quando fechei o último volume após a leitura, tive a certeza de que cada minuto gasto com essa obra valeu, e muito, a pena. Esta é uma leitura mais do que obrigatória. Não tenha medo de se aventurar neste mar de emoções e pensamentos humanos que é Hikaru no Go. Vá agora ler o mangá, ou assistir o anime. Eu disse AGORA.

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Sobre Daisuke~

Amante de cinema (e de arte e entretenimento de forma geral), adora escrever sobre filmes, livros, mangás, etc.

Publicado em julho 17, 2012, em reviews e marcado como , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. O anime deixa a desejar em relação ao mangá?

    • Olha, o anime só não cobre os últimos quatro volumes, aproximadamente. Mas é bem satisfatório, porque ele, de certa forma, tem um “final de verdade”, ao contrário de outras animações que não cobrem a obra original por completo. Claro, o mangá é melhor por ter mais um pedacinho de história, mas o anime é bem satisfatório e é uma adaptação excelente.
      Obrigado pela visita, abraços.

  2. AMO HIKARU NO GO!! sou fã número 1

  3. Que resenha perfeita!

    Gostei especialmente da atenção que você deu aos personagens que ficaram pra trás, de seu abandono. Mas acho que é justamente por isso que HikaGo é tão bom? Digo, não por abandonar os personagens, mas por fazer nos preocuparmos com eles, mesmo depois de ficarem pra trás. Muita gente concorda que leria um spin-off sobre o clube de go da escola. Poucos mangás conseguem ter personagens tão cativantes ao ponto de lamentarmos a saída deles.

    • Obrigado pelo comentário, Sarah!
      E sim, eu concordo! O Mitani continuou sendo um dos meus personagens favoritos, mesmo não aparecendo tanto mais pra frente, por exemplo. E eu leria, sim. Sem dúvida alguma, heh.
      Volte sempre!

  1. Pingback: #Mangathering1ano TOP 5 – Mangás Shounen « Mangathering | 1 ANO!

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