Review: Os 120 Dias de Sodoma (livro)

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Certamente, o leitor já informado sobre a obra abordada neste post sabe que, definitivamente, Os 120 Dias de Sodoma, magnum opus de Donatien Alphonse François, imortalizado sob o título de Marquês de Sade, não é um livro para qualquer um. Obviamente, há quem nunca tenha ouvido falar desta pérola marginal da literatura e do polêmico francês que a assina, portanto, segue uma pequena introdução sobre o marquês.

1Sade, que morreu aos 74 anos, passou 27 destes preso. E foi na prisão da Bastilha onde escreveu seus livros e contos: entre eles, claro, Os 120 Dias de Sodoma, escrito em apenas 37 dias. Com a sua transferência para outro lugar e a tomada da Bastilha- que ocorreria pouco depois-, o marquês perdeu seus manuscritos, incluindo este, pelo qual tinha uma consideração especial. Por sorte, a obra fora achada- após sua morte- e publicada.

Ateísta convicto, Sade teve sua obra caracterizada pelas grandes críticas à religião e seus dogmas, além de, claro, diversos fatores sociais presentes na França da época. Porém, como bom libertino que era, ele sabia que para tamanha afronta, era necessário algo chocante, que chamasse a atenção. Justamente por isso os textos de Sade não são para qualquer um: eles afrontam tudo o que é tido como correto e ético, simbolizando críticas virtuosas em tramas repletas de estupro, assassinato, tortura, crimes e as mais diversas parafilias. É do nome do autor que surgiu o termo sadismo, e é de sua obra que diversos artistas de diferentes áreas conseguiram inspiração para seus trabalhos, como o maravilhoso Suehiro Maruo e o diretor Luis Buñuel (O Anjo Exterminador)- além do também diretor de cinema Pier Paolo Pasolini, que transportou a trama d’Os 120 Dias para a Itália fascista em Saló (1975).

Para compreender melhor a relação de Sade com o cristianismo, leia o seguinte trecho de suas próprias anotações (retirado de Discursos Ímpios, editora hedra, pág. 21):

“Débeis e absurdos mortais que o erro e o fanatismo cegam, retomai das perigosas ilusões onde a superstição tonsurada mergulha-vos, refleti no poderoso interesse que ela tem de oferecer-vos um Deus, supostamente dotado de um poder que tais mentiras lhe dão sobre vossos bens e espíritos, e vereis que tais escroques deveriam anunciar apenas uma quimera, e, inversamente, que um fantasma tão degradante só podia ser precedido por bandidos”

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Este livro é uma perfeita síntese do legado de Sade: seu erotismo politicamente incorreto fez com que esse grande manifesto subversivo fosse considerado como uma das obras mais polêmicas da história. Não à toa, como sua sinopse indica: quatro ricos libertinos resolvem isolar-se do mundo num castelo com prostitutas, “fodedores”- como Sade chama os rapazes, escolhidos com base no tamanho do órgão sexual- e crianças. Serão 120 dias de orgias, crimes e as mais diversas obscenidades.

Ler Os 120 Dias de Sodoma é como comer agrião: é ruim, mas faz bem. O valor histórico da obra é inestimável, mas como uma obra fictícia, talvez não seja grande coisa, afinal. Após uma exageradamente extensa introdução (60 páginas!), na qual o autor sempre lembra que as páginas que se seguem não são para pessoas sensíveis ou com alguma integridade moral, a trama realmente se inicia. Ela é dividida em quatro partes: a cada mês, uma das prostitutas conta sobre 150 histórias de fetiches e crimes que conhecem. Porém, apenas o primeiro mês é descrito detalhadamente. A obra está incompleta, e os outros 90 dias são apresentados como um rascunho, um planejamento do autor.

Sade era um exímio argumentador: suas ideias sempre foram apresentadas com competência e de forma coesa, mas sempre esteve longe de ser um grande escritor, pelo menos em obras grandes. Sua narrativa é bastante cansativa e repetitiva, o que torna a leitura maçante em certos momentos. Não só isso: não há problema algum com as obscenidades da trama; mas sim com seu formato. Os contos, curtos- de duas, três páginas-, escritos pelo marquês sintetizam magnificamente bem todas as suas críticas de maneira a conseguir entreter o leitor. Mas em uma trama longa, extensa, tais ideias repetem-se muito, chegando a incomodar. Pelo menos o autor soube controlar o grau de violência dos acontecimentos, que vão ficando cada vez mais absurdos, e culminam num final memoravelmente grotesco.

O marquês não faz questão de construir personagens memoráveis: elas são descartáveis, afinal. O importante é mostrar o embate entre virtude e vício, tão presente nos textos sadianos. Mas, seguindo essa lógica, talvez fosse desnecessário escrever 60 páginas para falar sobre cada uma dessas personagens- e ainda resumir tudo o que foi dito ao final dessa introdução. Talvez essa falta de envolvimento do leitor com as personagens impeça uma maior carga emocional- e claro, não era algo tão necessário, visto que a intenção era que a trama fosse chocante em outro sentido.

A questão é: as desventuras desses 120 Dias de Sodoma não necessariamente vão entreter a todos. As obscenidades conseguem ser bastante divertidas para os menos sensíveis- não apenas no sentido grotesco, mas até ocasionando um humor negro involuntário-, mas a narrativa que prioriza a argumentação à trama pode afastar quem apenas quer um livro que entretenha. Porém, ao deixar temporariamente de lado essa deficiência narrativa- deficiência, que fique claro, se tratando de uma obra de ficção. Como livro filosófico, de forma poderíamos classificar tal fator como deficiência- e agarrando-se ao contexto histórico e às fortes críticas, a obra deixa claro o porquê de ser uma das grandes obras da literatura universal e provavelmente o maior clássico subversivo e libertino já escrito.

A questão não é recomendar Os 120 Dias de Sodoma ou não. Caso esteja preparado, vale a pena arriscar.

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Sobre Daisuke~

Amante de cinema (e de arte e entretenimento de forma geral), adora escrever sobre filmes, livros, mangás, etc.

Publicado em agosto 14, 2013, em Posts não-Otakus, reviews e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Adorei a review, eu não considero 120 dias o melhor livro de Sade, pois a leitura é muito cansativa e o livro tem essa pretensão de ter sido para chocar. E pode ser visto como uma especie de catalogo em que o autor colocar todos os tipos de perversões sexuais.
    As peças de teatro como filosofia na alcova ou justine são grandes obras da literatura e Sade debate mais moral, filosofia, costumes. Afinal mas do que o um escritor literário, ele foi um filosofo e um revolucionario. Para que se interessa por esse assunto recomento a leitura de George Baitelle que é um filosofo que é influenciado por Sade e debate bem os escritos dele.

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