Review: The Music of Marie

Ah, são tantas coisas… por onde começar? Bom, começarei dizendo que o mangá comentado neste post é o meu novo mangá favorito, e provavelmente o melhor que eu já li. Este é The Music of Marie, de Usamaru Furuya (Litchi Hikari Club, Jisatsu Circle), publicado em 2000 na Comic Birz. Seja bem-vindo a um mundo encantador, do qual a sua mente jamais sairá.

A obra nos apresenta a um mundo cujos habitantes louvam uma deusa mecânica chamada Marie, e é nele que vivem Pipi e Kai. Pipi é uma garota que está prestes a completar seus dezoito anos, e, pela tradição de Gil-sua cidade, que é uma espécie de ilha operária-, neste aniversário lhe serão feitas propostas de seus pretendentes, e então, ela deverá escolher um rapaz e entregar um ovo ao sortudo que ganhou seu coração. Ela pretende dar o ovo para Kai, um rapaz dono de uma audição absurda. Ele pode escutar de tudo, inclusive uma misteriosa música proveniente da deusa Marie, que parece ter uma ligação com ele. Até aí, parece até uma historinha clichê de romance e fantasia com um protagonista que é “o escolhido”, mas se foi nisso que você pensou, faça-me o favor de esquecer. The Music of Marie é um mangá feito para fazer o leitor refletir, e entre os seus principais temas, estão a religião e os avanços tecnológicos.

Para começar, o universo do mangá é uma utopia. Não ocorrem brigas desnecessárias, a ganância do homem não supera os princípios e a ética, entre outras coisas. Justamente por ser um mundo tão pacato e com uma aura calmante tão forte, mais parece uma crítica ao mundo em que vivemos. Aliás, isso fica ainda mais evidente com alguns acontecimentos no decorrer da história. Com isso, Furuya parece parodiar o conceito de sociedade ideal, forjando um mundo no qual todos adoram à mesma figura, e vai desconstruindo todo esse conceito ao longo do mangá, nos fazendo pensar se vale mesmo a pena viver em função da crença, se os benefícios da mesma podem sobrepor os possíveis problemas por ela causados, e coisas do tipo. Todas essas ideias são apresentadas de maneira magistral, provando que Furuya tem mesmo aquela característica sempre elogiada de inserir questões sociais e filosóficas – independente se direta ou indiretamente- com extrema eficiência, fazendo com que o leitor mais atento realmente reflita sobre isso.

O primeiro dos dois volumes da obra mais parece uma apresentação do universo da mesma; o começo é lento, e vai apresentando pouco a pouco algumas personagens que se farão presente ao longo dos dezesseis capítulos. Talvez essa lentidão dos primeiros três capítulos, mais ou menos, até irrite alguns leitores, mas é perceptível que a obra vai aumentando o ritmo, terminando o primeiro volume muito bem, e apresentando um segundo ainda melhor, repleto de acontecimentos importantes e temas levantados pela mente perturbada do senhor Furuya. Aliás, é impossível não se empolgar com o segundo volume, que é provavelmente o melhor que eu já li dentre todos os mangás por mim conhecidos; o autor gradualmente começa a jogar revelações e eventos, até que chega ao capítulo onze, o divisor de águas, talvez o melhor capítulo da obra. É ele o responsável por levantar tantas questões e perturbar tanto a nossa mente, é ele que mostra a que veio o mangá, o quão complexa a obra pode ser.

Quando eu digo que Usamaru Furuya é um cara perturbado, não é porque ele fez uma versão em mangá de uma peça de teatro sobre garotos de quatorze anos sequestrando, matando, estuprando e torturando (não, não é Capitães de areia), mas sim porque da mente dele surgiu The Music of Marie, uma obra não menos do que mágica, fantástica, sensacional, perfeita. Nestes dois volumes, Furuya conseguiu criar um dos mais fascinantes universos da ficção, onde tudo te faz refletir, onde tudo parece belo, onde tudo é nada e nada é tudo. The Music of Marie mais parece uma viagem pela mente humana –quiçá divina- e cativa o leitor de maneira inimaginável. Esse ambiente, ora surrealista, ora imaginariamente realista, é construído com um detalhismo assombroso.

No character design, o autor parece adotar formas menos detalhadas, mas mesmo assim belíssimas. No que Furuya se destaca mesmo, são os cenários, as páginas duplas e as páginas coloridas. Cenas de beleza imensurável nos fazem viajar no universo da deusa Marie; principalmente naqueles cenários que, de tão criativos, só podem mesmo ter saído da cabeça do autor. A quantidade de detalhes e a qualidade dos mesmos é de deixar qualquer um boquiaberto. Parece até obra de Deus.

O autor surpreende, procurando sempre os caminhos inesperados, e raramente apelando para clichês-que, quando utilizados, são extremamente pontuais. O final da obra é outro ponto de destaque, pois mostra que The Music of Marie é um mangá complexíssimo e tão belo quanto possível-e impossível. As personagens de destaque também não fazem feio, e mostram o porquê de protagonizarem a trama perfeita da obra. Até nos pontos contestáveis de sua construção – que são pouquíssimos, e, ao meu ver, nenhum- eles acabam provando que são mais do que aparentam. Tomando como base as diversas influências artísticas de Usamaru Furuya, The Music of Marie mais parece uma pintura narrada. A calmaria, a tensão e todos os sentimentos que envolvem a trama são expressos com um virtuosismo assustador, graças à uma arte espetacular e uma narrativa supereficiente.

Uma obra que se inicia com uma calmaria que pode até ser excessiva em alguns momentos, com um mundo utópico, uma sociedade interessante, e que ao seu desenrolar vai levantando diversas questões sobre a fé e a humanidade. Filosófico; lindo; perfeito. The Music of Marie é impecável em tudo o que se propõe –lhe daria um belo dez, por sinal-, seja em apresentar um mundo pacato e feliz, seja em representar a angústia e a dor, seja em criticar a nossa sociedade de forma sutil –ou nem tanto. Será que, afinal, nós precisamos de um Deus?

Obs: Recentemente a Fuji Scan lançou a obra completa em português, com ótima qualidade de edição e tradução. Eles também têm outros projetos muito bons, como Onani Master Kurosawa,  Omoide Emanon, Dorohedoro, entre outros, deem uma olhada depois. E lembrem-se de que The Music of Marie não é só recomendado, é mais do que obrigatório se você se considera um ser humano.

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Sobre Daisuke~

Amante de cinema (e de arte e entretenimento de forma geral), adora escrever sobre filmes, livros, mangás, etc.

Publicado em novembro 21, 2012, em reviews e marcado como , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. É um mangá muito bom mesmo, um dos melhores. Faz algum tempo que li. Inicialmente o que me atraiu foi a arte. Ocorre a imersão no cotidiano de maneira simples e sutil, naturalmente. Temática excelente, muito profunda. Tanto para a mente quanto para o coração. De algumas coisas pontuais eu não gostei muito, como na parte que ele vai para uma ilha e quando visita uma espécie de museu no subterrâneo. Não que seja ruim, mas é algo que me ocorre em diversos mangás e livros orientais. Algo que talvez ainda não consiga entender.

  1. Pingback: Recomendação da semana: Palepoli « Mangathering | 1 ANO!

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